Violência pega carona no transporte público

O transporte público do Distrito Federal é marcado pela   precariedade dos serviços prestados. Contudo, as dificuldades  vão além da  estrutura das empresas. Passageiros e rodoviários são obrigados a conviver diariamente com assaltos e outros tipos de crimes. Um exemplo é o que aconteceu na última quarta-feira, quando o cabo da Polícia Militar  Osmar Catarino Júnior foi morto por um colega da corporação, ao tentar evitar um assalto que acontecia dentro do coletivo.

Os números comprovam o alarmante crescimento do número de roubos a coletivos. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, os assaltos a ônibus aumentaram de 483 para 595 no primeiro quadrimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. É  um crescimento de 23,18%.

A frequência da prática criminosa tem sido motivo de pânico para passageiros e trabalhadores do sistema rodoviário, como a cobradora Joelma da Silva Ramos, que foi assaltada três vezes enquanto trabalhava. “Foi assustador. Eles apontaram a arma e levaram todo o dinheiro que tinha”.

De acordo com a cobradora, mesmo diante do susto, a única alternativa encontrada foi continuar trabalhando. “Eu fiquei com muito medo, mas preciso trabalhar. Não tem jeito”, destacou.

Seis vezes 
Com dezesseis anos de profissão, o cobrador Manoel Cardoso, 45 anos, não se esquece dos  assaltos que sofreu. “Fui assaltado seis vezes. É uma situação traumática e o medo não passa nunca”, afirmou. Segundo ele, no momento do assalto, a vítima fica em estado de choque. “A gente fica paralisado, sem acreditar no que está acontecendo”, contou o trabalhador.

De acordo com o cobrador, após ser assaltado inúmeras vezes, ele já se acostumou com o medo que o acompanha durante a jornada de trabalho. “Parece que a gente cria   prática e vai sabendo como reagir. Chega a ser estranho falar isso, mas a verdade é que nos acostumados com isso”, disse.

OBJETOS 
Para evitar ainda mais prejuízos, ele deixou de andar com objetos e acessórios de valor. “Gosto muito de relógios, mas nem posso comprar um de boa qualidade para trabalhar, pois sei que vão roubar. A gente trabalha e não pode nem usufruir do que compramos”, contou.

Segundo Manoel, o retorno à residência após um dia de trabalho possui significado especial. “É um alívio que não tem como explicar. Saímos com medo e voltar com vida é muito bom”, desabafou.


Abandono da profissão por causa do medo 
A cobradora Elis Cristina, que foi assaltada três vezes em apenas um mês, conta que o medo a fez decidir abandonar o ofício. “Não quero mais trabalhar com isso. Decidi fazer a faculdade de Pedagogia e abandonar essa vida”, afirmou. 

O motorista Gilberlândio Valério de Oliveira, 34 anos, relata que desde que foi vítima de um assalto, no qual teve uma arma de fogo apontada para sua cabeça, o medo tem sido seu   companheiro. “Toda vez que vejo alguém suspeito entrando, fico com muito medo. Até porque eles não possuem uma maneira exata de agir. Alguns anunciam o assalto imediatamente, outros esperam o fim do percurso”, disse.

O motorista Marcelo Neves também afirma ser refém do medo. “Fui assaltado mais de cinco vezes e vejo colegas de trabalho passando por isso o tempo todo”, contou.
 
 
Cenas que não saem da cabeça
Vítima de um assalto à mão armada, o cobrador Francisco Pereira Sales  costuma carregar uma espécie de amuleto para o proteger durante o trabalho. “Carrego um santinho com mensagens bíblicas. Me sinto mais protegido”, relatou o trabalhador. 
Francisco conta que no momento do assalto, só pensava na filha. “Fiquei com muito medo de morrer e só pensava nela. Saio de casa para trabalhar sem ter certeza que vou voltar”, afirmou. Para um futuro mais tranquilo, sua meta é ingressar em outra profissão. “Vou terminar os estudos e arrumar um trabalho mais seguro”, declarou Francisco. 
 
Passageira 
A copeira Maria do Carmo Lopes conhece o drama de ver o ônibus que a levava ao trabalho ser invadido por assaltantes armados. “Na hora, é um susto terrível. O bandido entrou, pagou a passagem, sentou perto do cobrador e no decorrer da viagem anunciou o assalto”, relatou, com tristeza.
Ela destaca que em função do medo de ser assaltada, tem alguns cuidados especiais. “Ando somente com a cópia dos meus documentos pessoais e não levo em hipótese alguma dinheiro na carteira”, afirmou Maria. 
Medidas de segurança são esperadas para conter os crimes. De acordo com a Secretaria de Transportes, cada um dos 2.580 veículos adquiridos com a licitação contará com duas ou três câmeras. O objetivo, além de garantir a segurança, afirma o órgão, é registrar tudo o que acontecer no interior do ônibus. Além disso, os veículos deverão ter GPS  e ser  monitorados durante todo o trajeto. 
Levantamento 
Segundo a Secretaria de Segurança, até a próxima semana será divulgado um levantamento detalhado dos índices de assaltos aos coletivos. Além disso, o estudo mostrará quais são as linhas com a maior quantidade de assaltos. 
Discussão de estratégias para o problema 
A reportagem do Jornal de Brasília entrou em contato com o Sindicato dos Rodoviários, mas não conseguiu contato com o presidente, João Osório. Porém, representantes da entidade informaram que a sensação do sindicato é de preocupação com o cenário da violência no transporte coletivo. Em função disso, representantes do sindicato estão  se reunindo regularmente com dirigentes da Polícia Militar com o objetivo de buscar alternativas para coibir o aumento dessa prática criminosa. 
Uma das alternativas encontradas pelo sindicato é a presença de policiais à paisana dentro dos ônibus nas linhas consideradas mais perigosas. Contudo, ainda não existem definições de quais medidas serão realmente adotadas.


Fonte: Da redação do clicabrasilia.com.br

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